Tem dia que não quer comida nenhuma, só mamadeira - mas se tiver macarrão ela topa, até mesmo logo depois de mamar. Tinha de ser macarrão hoje - pouca opção na geladeira, nos armários, o horário passando.
A água já estava quase fervendo, um pouco menos de meio pacote de penne, sobra do jantar de outro dia, esperando ao lado; Mariana impaciente, agitada para driblar o próprio sono, já que tinha dormido mal a noite anterior e não havia tirado a soneca da tarde, hoje, a ajudante prestes a ir embora... e não tinha nem alho nem tomates para molho.
Tinha uns tomatinhos pequenos, de umas três ou quatro variedades, que eu havia acabado de colher no quintal. Agora, com a seca os besouros-de-botas, com suas patas traseiras largas, deram um tempo, estão procriando menos, quase não encontro suas pupas vermelhas, quase só adultos - e algumas larvas dentro dos frutos. Ela adora comê-los de aperitivo. Logo que começou a dar os primeiros passeios no quintal, há um ano, ela já colhia e comia ali mesmo tomates de todo tipo. Às vezes não dava nem tempo de passar uma água nem ver se tinha bicho - poeira e bicho eram parte do sabor e da textura. Depois da última estação chuvosa, os bichos aumentaram muito e passamos a controlar um pouco mais. Lavei e parti os tomatinhos ao meio e ela se distraiu um pouco.
Botei o macarrão na água e corri na horta para pegar umas folhas de couve e ainda tive que dar uma paradinha para esmagar uns ovinhos amarelos de lagarta, ô bichinho intenso essa borboleta amarela que procria efusivamente o ano todo, e algumas lagartinhas já devorando as pontas de uma folha. Cada postura tem de 20 a 50 ovos militarmente enfileirados e grudados de pé, feito ovos de Colombo, e quando eclodem, se deixar, devoram o pé inteiro em um ou dois dias.
Lavei as folhas recem-colhidas, pra tirar a poeira de terra seca - este ano tem menos, acabaram de asfaltar a rua - e os pulgões, outra praguinha constante das couves - mas estes fazem menos estragos, uma planta formada até aguenta uma colonização leve, lavada com esguicho e passadas de mão duas vezes por semana... Lavei as folhas, enrolei feito charuto e piquei na tábua de madeira, primeiro em discos, depois em pedacinhos, pois os filetes dos discos são difíceis para ela mastigar.
Depois de comer um bom tanto dos tomatinhos, ela achou a cesta onde estavam os outros e brincou de jogar todos pra cima... e depois, de pisar em alguns. Hoje ela não quis brincar de recolher e guardar.
Tinha castanhas do pará, ralei e botei na frigideira com azeite. Um pouquinho de sal e um tanto de gergelim. Refoguei a couve, esperei o macarrão cozinhar e o fritei em meio a este refogado.
Servi o prato dela e piquei cada peça ao meio, para facilitar com a colher e a boquinha dela. O queijo ralado que havia era um de segunda, que por aqui não é tão fácil encontrar dos melhores, mas ela gosta não apenas do queijo, mas do ato de polvilhá-lo com os dedos sobre o prato. Bom, agora estou lembrando que tem um pedaço de melhor qualidade, podia ter ralado num prato e dado a ela. Mas na hora, esqueci.
Ela comeu até o fim, depois pediu música para dançar e, por fim, colo e cama - com mamadeira e livrinhos de figuras.